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A Guitarra e a Democracia

Nas últimas semanas ando particularmente viciado no novo disco do Gojira e em toda a mensagem política que ele carrega. Em contraponto, abri o Facebook (e, consequentemente, vi a enxurrada de chorume que aparece por lá) e comecei a ter devaneios sobre a guitarra, a democracia e o verdadeiro sentido da música.

Não é de hoje que todo mundo sabe que o rock veio do blues, que surgiu de cantigas de trabalho de escravos africanos - e aí você me pergunta “mas o que diabos isso tem a ver com democracia?” - como diria Jack, vamos por partes.

“Blues”, como o próprio nome já diz, é sobre tristeza e na década de 20 a deusa Bessie Smith já cantava sobre o cotidiano de pobreza e violência.

Chuck Berry é uma aula de política: negro, pobre, com passagem pelo reformatório por assalto à mão armada - tudo aquilo que o dito “cidadão de bem” (e lembrando que "The Good Citizen" era um périodico da KKK) quer ver morto - e conseguiu chegar ao estrelato e ser considerado pai de um novo estilo num tempo em que os EUA ainda vivam sob leis de segregação racial.

Recordo também de meu pai dizendo sobre quando os Beatles surgiram “eles eram tidos por subversivos, uma ameaça aos bons costumes, incitavam a rebeldia”.

O movimento hippie anos depois, no “verão do amor de 67” - Hendrix, Grateful Dead, Otis Reading, e todos os outros, indo diretamente contra o establishment.

“Ain ainda não entendi?” - Black Sabbath com “War Pigs” por exemplo, Pink Floyd em toda a sua discografia, isso sem falar no movimento punk, ou o Nirvana em músicas como “Lithium” ou “Rape me”, e se você procurar bem vai achar críticas até mesmo no nada saudoso “Hair Metal” milionário oitentista - cujo próprio visual era uma agressão direta ao constructo do que é masculino ou feminino. Iron Maiden e suas críticas diretas à conservadora Margaret Thatcher em suas capas, ou então apenas pare para ouvir “Be Quick or be Dead”. Ou simplesmente TODAS as músicas do Rage Against the Machine (mesmo com o bizarro fato de "Killing in the name" ser obrigatório na trilha sonora de festinhas e barzinhos de bairros de luxo recheados de playboys usando polo Lacoste e sapatênis com pullover nos ombros). E nunca se esqueça de toda a luta de Rob Halford, o maior deus do metal, pelos direitos LGBT.

Telão com mensagem anti-Trump em show do Roger Waters

Toda a narrativa do rock durante a história foi construída com objetivo de chocar as normas da sociedade através de arte, e com o choque trazer mudanças progressistas ou pautas de minorias. O rock em sua essência é o contrário do conservadorismo, é o contrário do racismo, é o contrário de qualquer tipo de opressão, e a guitarra uma ferramenta poderosa na luta constante pela igualdade de direitos, pela subversão direta de valores retrógrados, por uma sociedade igual, e pela democracia. O rock é política.

Alguns anos atrás li um livro do Yury Hermuche (guitarrista de uma das minhas bandas favoritas - Firefriend) chamado “Anti Heróis & Aspirinas”. Em um trecho ele compara o motociclista de final de semana, que se veste de couro e monta sua Harley ouvindo Steppenwolf enquanto no dia a dia é um engravatado do sistema, com uma criança que se fantasia de super herói. Penso que é a mais pura verdade num termo comparativo com o rock:

- A pessoa que se diz do rock, mas tem atitude conservadora, negacionista, preconceituosa, racista, misógina, homofóbica ou que enxerga música como uma disputa e não como arte, está apenas se fantasiando de “roqueiro” . Ou como eu prefiro chamar: ROQUISTA.

Chega a ser ridículo ver defensores de fascismo querendo se apropriar de toda a história do rock usando uma máxima de “postura de foda-se” como argumento. São assim exatamente por não entenderem o que é rock e serem os verdadeiros posers. A "postura do foda-se" é a essência do rock contra o status quo, mas isso requer um entendimento do básico: a sociedade mudou e o rock sempre acompanhou e incitou essa mudança. Estamos em 2021 e a música não tem mais espaço para roquista reaça.

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